por Mateus Moura
O ator, para atingir o seu objetivo – qual seja, o de elevar um instante ao nível do sagrado – deve dominar com leveza e força o espaço visível e o invisível.
O espaço visível é aquele que contém as dimensões da altura, da largura e da profundidade e se desenha no tempo. A matéria que ocupa esse espaço é o que chamamos de corpo, o organismo humano constituído pelo tronco inferior e superior, e revestido pela pele.
O espaço invisível é aquele que contém as dimensões do timbre, da altura e da intensidade e que também se desenha no tempo. A onda que vibra nesse espaço é o que chamamos de voz. Ritmo, melodia, harmonia, ruído e silêncio são análogos de tempismo, gesto, jogo, caco e pausa. O objetivo do ator é atingir o Mundo, ou seja, fazer de cada nota emitida enquanto frequência o mais belo gesto coreografado no ar, de cada caco improvisado o mais impressionante e inesperado ruído, de cada pausa o mais exato silêncio, para que o ritmo em si se confunda ao mais clarividente tempismo, e assim, cada ator enquanto instrumento afinado, inspire o diapasão que pulsa e expire no jogo da harmonia.
O ator é o filho na Trindade.
Para o ato brilhar sublime também necessita-se do pai (a energia) e da mãe (a poesia). O pai é a força, a mãe é a luz. O pai age, a mãe recebe. O objetivo do filho é atingir o Mundo, retornar ao lar. Lá onde música e dança se confundem, onde espaço e tempo, visível e invisível, energia e poesia, masculino e feminino, são um só instante.
Esse instante eterno - ou infinito - é o que comumente chamamos de cena. Ou utilizando uma palavra mais antiga, rito.
Um dia andarilhos, eternos errantes, atuais peregrinos, caminhamos rumo ao inédito familiar. Deixando o universo para adentrar o cosmo. Abandonando o cotidiano para comungar do extraordinário. Fazemos por oferenda.
