por Mateus Moura
'Nada aqui é obrigado; tudo é sagrado.'
Artaud já se incomodava com a palavra “profissionalismo”. Tal termo estava tão distante do que ele buscava quanto o dinheiro está distante do que busca o monge. Preferia as palavras “trabalho” e “dedicação”. Buscava não o fim, mas a causa. Antes do resultado, a descoberta. Seu caminho não era convencer, mas aprender.
Há tempos que a arte se confunde com a indústria. E, no caso do cinema, temos o ápice convulsionante desta relação.
E não é o caso de lástimas. As disciplinas estão aí para, indisciplinadamente, miscigenar-se. A pureza é uma procura utópica - que também é necessária.
Entre purezas e impurezas cada um vai filtrando o barro que se mostra o justo para construir seu próprio lar. Nós somos da mesma tribo de Artaud: acreditamos no teatro como ritual (de comunhão com o sagrado). E para cá não se convida ninguém, as pessoas chegam. Só está aqui quem aqui tem que estar. Procuramos, atentos à harmonia, apenas acompanhar a ordem do cosmo. Escutar seu fluxo, e mergulhar. Cantar em coro. E, se destacando dele, atuar. Atados ao motor.
Quem já é da tribo e sabe o que tem que fazer vai ensinando aos que chegam, e aprendendo com eles as novas obrigações. O dever aqui não é antônimo ao direito, ambos são faces de uma mesma moeda chamada sacrifício - quando o ofício é sacralizado e o trabalho se torna um jogo, onde a brincadeira é superar os próprios limites para encontrar-se. E promover encontros no uno, além dos egos. O bem material é sempre bem-vindo, mas não é causa, é consequência. O mesmo ao reconhecimento.
Libertar os espíritos das amarras da personalidade instituída pelo destino. Vê-los, livres, reocupar os mesmos corpos, reanimando-os com novidade. Instituindo Graça. Eis o intuito primário dessa pedagogia que professamos enquanto aprendemos. Aqui na escolinha não-obrigatória se ensina a aprender, o curso é livre e as diretrizes são confirmadas pela experiência. Não tememos as leis, elas necessariamente existem, e é bom que sejamos seus árbitros conscientes. Não tememos, sobretudo, modificar as leis, o método é dinâmico, o modus operandi vai se ajustando de acordo com as demandas. Concordamos que Nada aqui é obrigado; tudo é sagrado. Quem aqui deseja estar que deseje estar tão-somente.
Estar é ser no presente, de corpo e espirito inteiros. Estar aqui, por inteiro, porque deseja, é ser o lar. Sacralizar o tempo de ser no espaço de estar.
Até que o sempre diga não.
Mateus Moura (aprendiz de ator/diretor/músico/dramaturgo/cineasta na Trupe Perifeéricos)

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